terça-feira, 17 de julho de 2012

Dias de Chegar


                                                                                                                                           Julho 2012
Chegar…depois de partir, tantas e tantas horas antes.

Chegar levando a euforia pelo desconhecido, com o desejo de aventura, de conhecer e de descobrir olhares, vidas, mares já antes navegados, mas ainda com muito por navegar.

Cada viagem é uma entrega, mas é muito mais: é também a humildade da partilha, da entreajuda, a descoberta de novos sabores, novas realidades, novas cores, novas melodias e emoções; viajar é receber aquilo que o outro tem para nos oferecer – aquela torta de chocolate tão especial, os bombons com o laçarote cor de laranja, a música tradicional, aquela pizza inundada por uma avalanche de queijo macio e delicioso, aquela salada de frutas da época, servida na taça de plástico no mercado de rua, aquela carne picante com molho escuro e perfumado, a sandes de espetada, a salada de batata com queijo e especiarias, o cozido de caril, o chá de menta e muito mais.

Viajar é sabermos valorizar aquilo que temos e do qual tantas vezes nem nos damos conta, quando se corre apressado para mais um dia de trabalho e depois, de regresso a casa, a pressa continua, porque no dia seguinte recomeça tudo de novo. É preciso trabalhar, é claro!

Quando se viaja o tempo corre mais devagar, porque sabemos aproveitar melhor as horas, os minutos e os segundos, pois sabemos que não temos todo o tempo do mundo e há que regressar a casa dentro em breve.

Viajar é saber relativizar os nossos problemas, é fazer de nós um Ser Humano melhor, quer seja quando nos entregamos à macacada, que espera ansiosa e ruidosamente por mais um amendoim descascado (e já agora, se não for pedir demais, um abracinho apertado); ou quando nos deparamos com outras gentes, com outras vidas, mas com muitos dos mesmos medos e angústias e muitas das mesmas paixões.

Espera, espera! Há que tirar mais uma foto! E outra! Só mais uma…vá lá! Também, a máquina é digital e podemos tirar quinhentas fotografias e apagar 499, não é fantástico? Só mais uma e páro! Está combinado! Pelo menos por agora. Sim…Temos de nos precaver…não vá a máquina falhar e ficar desfocada aquela foto, logo aquela!!! A que eu mais queria, para fazer aquele poster que vi na loja da esquina. Aquela foto marcava aquele dia…aquele instante…e a outra marcava o outro…e o outro também… com aquela fotografia eu queria reter aquilo que não é possível reter…a magia do momento, aquele olhar doce, o outro olhar sofrido mas onde se avista a esperança, como se fosse uma luz ao fundo de um imenso túnel; aquele olhar que não coincide com o respectivo sorriso e vice-versa; aquele brilho, aquela cor, aquela imensidão de mares, de olhares, de sorrisos, de abraços, de apertos de mão ou reter simplesmente aquela energia que nos envolve, une e nos torna Gente.

Há dias especiais, ternos, mágicos, esses são alguns dos dias em que eu gostaria de parar o tempo, durante largos instantes, como aqueles instantes que demoram para a maré baixar ou subir novamente e desfrutar bem devagarinho – são estes os dias em que tudo parece estar no lugar certo, em que tudo faz sentido; são aqueles dias em que se ouve a cigarra no lado de fora da janela da sala de estar, ou se ouve um passarito mais atrevido, a fazer um solo, convencido de que é o melhor dos tenores, na presença de toda uma imensa orquestra sinfónica.

Há dias, que são mais dias de chegar…não de partir.

Anabelarmina
http://www.youtube.com/watch?v=OOFe4Krv048