sábado, 2 de abril de 2016

Um príncipe e uma princesa...


Ele tinha caracóis cor de azeitona e ela tranças louras.  Tinham mais ou menos a mesma estatura, ele mais 3 anos do que ela. Em comum tinham entre muitas coisas mais, o gosto de sonhar, acordado.
 E passavam os dias a olhar o céu, a tentar adivinhar as formas sugeridas pelas nuvens muito brancas, no céu azul muito claro. Os dias corriam a tentar adivinhar a melodia dos rios, dos ventos, das marés, das gotas da chuva, do luar ou a da dança das estrelas.
Como todos os príncipes, também estes viviam em castelos soalheiros, rodeados de uma natureza imensa e tão verde que deixava qualquer um cheio de vontade de ali habitar. Pela manhã costumavam encontrar-se às escondidas debaixo de uma alfarrobeira enorme, centenária e cujos ramos tinham sempre empoleirados meia dúzia de passaritos saltitantes e ruidosamente felizes. A alfarrobeira ficava na margem direita de um pequeno riacho cujas pedras eram forradas a musgo fluorescente, com rebordo alaranjado, que lhe dava diversas formas, às quais era impossível ficar indiferente.
A alfarrobeira desta história, foi testemunha de muitas histórias de encantar, partilhadas há cerca de duas décadas atrás, quando Bea, a princesa, era criança e o príncipe ainda ali não vivia. Eram histórias mágicas, como são todas as histórias contadas pelos avós, debaixo de qualquer árvore, por mais pequena e desengonçada que seja. As histórias eram cheias de cor, com heróis, bandidos, fadas, sapos, dragões, joaninhas, flores, cozinheiras rechonchudas e rosadas que corriam atrás dos gatos mais atrevidos e que ao mais pequeno deslize, lá surripiavam mais uma sardinha, de cima da bancada de madeira escura da cozinha do castelo.
Esta alfarrobeira enorme, descia até ao solo, inclinando-se suavemente e formando um longo banco, rasteiro, onde avós, netos, pais, tios, primos, amigos, ...se sentavam e tagarelavam alegremente falando de tudo. Eram dias felizes, cheios de melodia, cheio de cor. Dias em que as crianças se sujavam de terra da ponta dos cabelos à ponta dos pés, em que se engoliam gemadas para dar mais energia, mais umas colheradas de óleo de fígado de bacalhau que fazia bem e se descascavam amêndoas, ainda verdes só para ver como eram por dentro...e por dentro eram gelatinosas e transparentes ...imaginem só. O tempo nesses dias sabia a mais tempo, a tempo melhor.
 O dia tinha amanhecido cinzento, muito cinzento. as nuvens espessas e escuras, ameaçavam o óbvio. Vem aí uma tempestade. E veio. 
Foram três dias sem parar de chover, de fazer vento, de estar cinzento. Em casa, as brasas da lareira crepitavam, cheirava a sopa de grão com hortelã, ou a canja de galinha do campo, ou a açorda de peixe com coentros, sempre cheirava a sopa
nestes dias frios, pelo menos a sopa. Os dias corriam lentamente, tranquilamente doces. Estes dias sabem a canela. Sabem tão bem, algumas vezes, estes dias.
a princesa não estava com o seu príncipe havia muitos dias, o que não era de todo uma situação normal. Começava a ficar impaciente, mas não havia forma de se comunicarem. Naquele tempo, no tempo destes príncipes, ainda não existiam telemóveis e o telefone mais próximo ficava longe, na mercearia da aldeia, como tal apenas lhe restava esperar, aguardar pacientemente por esse tempo que viria, mais cedo ou mais tarde. E esse tempo melhor veio, chegou finalmente, trouxe consigo um sol radioso,
aquele sol que nos aconchega a alma mas que por vezes também nos faz cócegas no estômago e nos chuta pata a vida. Esse sol que nos dá uma piscadela de olho e que nos desafia a quase tudo, que nos desafia a ser mais feliz.
Toc, toc ouviu-se na porta do palácio. Finalmente o príncipe chegara! e com ele regressaram as aventuras a grande velocidade.
A princesa adora todo o tipo de aventuras, de brincadeiras ao ar livre, principalmente as mais radicais; mas, no meio de todas essas aventuras as suas atividades prediletas continuam a ser caminhar e andar de bicicleta.
E assim foi...durante horas foram os mais felizes, os mais sorridentes, os mais brilhantes. O tempo parava sempre naquelas alturas, era como se não existisse mais nada, nem mais ninguém, pois ali estava tudo o que era necessário. Este era sempre um
tempo intemporal. Era um tempo eterno.
Viajar, sim viajar era outra das grandes paixões desta princesa. E de outras princesas claro está. Aliás viajar pertence ao mundo dos sonhos e como tal só podia mesmo ser uma coisa de princesas.
O seu príncipe acompanhava-a sempre, em todas as aventuras, em todas as viagens. Estes príncipes eram como peças de um puzzle, tudo fazia sentido, tudo estava no sítio certo à hora certa.
Claro está que a perfeição não existe todos os dias, mas por ali reinava muito do tempo que é tempo. No outro tempo, era quando a princesa ficava de mau feitio, só um bocadinho por vezes, mas outras vezes não era tão pouco assim. Nestes outros dias, era como se os seus neurónios resolvessem travar uma batalha campal com o mundo inteiro e ainda os arredores se tal ainda fosse possível, percebem? Era uma espécie de vendaval que vem sem pré-aviso, e então é uma enorme tempestade interna, que surge de um momento para o outro, capaz de baralhar as sardas de uma face
inteira em segundos, breves. Ficava azeda, mal disposta, ficava tão cinzenta e ao mesmo tempo incolor. Depois passava. E o sol voltava a brilhar uma vez mais e cada vez que surgia brilhava mais e mais forte do que na vez anterior. O príncipe já sabia com o que contar, fingia não perceber ou dizia simplesmente
...está bem, o mundo está todo contra ti hoje princesa, mas não faz mal, daqui a nada nada tudo passou, não há como lhe escapar, está tranquila. E ela ficava tranquila e ele tinha razão, sempre tinha, mas a princesa não gostava nada de lhe dizer isso, e amuava mais um bocado, só para prevenir e depois piscava-lhe
o olho. Ele gostava disso. Ela sabia que ele gostava.
E as aventuras continuavam, tempo após tempo, com uma zanga aqui outra acolá mas acima de tudo os príncipes eram felizes assim, nas subidas, nas descidas e no caminho mais reto.
Toda a gente no palácio e não só, achava que os príncipes eram namorados, mas eles não gostavam nada disso, ofendiam-se. Ofendiam-se porque não eram, quer dizer apesar de não serem, houve um dia em que o príncipe ficou algo baralhado e acho que sim, que eram e roubou um beijo
à princesa, que ficou furiosa e logo lhe perguntou: "Estás bem? O que foi isto? Porque fizeste isto?" o príncipe algo atrapalhado, com as suas enormes bochechas pintadas de grená retorquiu: "Porque me apeteceu".
Poucas coisas há que me melhor e mais genuinamente descrevam "o apeteceu". É o não ter justificação, encerrando nisso todas as possíveis e desnecessárias justificações. Poucos instantes passaram e já nenhum dos dois disso se lembrara, apesar das perna
s bambas, do coração a mil, das borboletas no estômago ou do frio enfiado nos ossos e que depois se transformava em calor. tudo voltou a ser como era antes, como sempre assim fora: a aventura de uma vida feliz.
Houve alturas em que os príncipes se viam mais amiudadamente, outras nem tanto, novos amigos foram surgindo na vida de ambos, amores também e um certo dia de primavera, daqueles dias em que as flores mais sorridentes estão, os príncipes voltaram a reencontrar-se a sentar-se como sempre, à sombra daquela alfarrobeira, já sem idade, e nome também já não tinha, o tempo tinha ído apagando e conversaram sem se lembrarem do tempo. Quando deram por isso, era lusco fusco e foi então que avistaram aquilo que apenas eles conseguiam visualizar, apesar de na altura estar um grupo grande de caminhantes por perto, que tinham ido explorar aquela zona mais montanhosa: viram vários pontos luminosos no céu, que, entretanto, tinha escurecido mais um pouco. Esses seis pontos, deslocavam-se em simultâneo, lentamente, e formavam um triângulo que parecia equilátero.  não era um avião, disso não restava qualquer dúvida. Estranho foi que mais ninguém se tivesse apercebido, porque o que viam estava relativamente perto, e a bom ver. A mais ninguém parecia perturbar, nem pelo menos atrair a atenção, apenas aos dois príncipes; era como se só eles o conseguissem ver. Porque esse era o objetivo. Sem mais palavras, os dois entreolharam-se e murmuraram baixinho ao ouvido um do outro: Estás a ver aquilo? Que será? quase em uníssono.
Está tudo bem, concluiu o príncipe, já tenho visto outros semelhantes. Está tudo bem. E a princesa não sabia porquê, mas sem mais questionar sossegou. Os dois príncipes permaneceram mais alguns instantes debaixo da alfarrobeira, aquela árvore imponente, que ninguém sabia explicar como se desenvolveu e ali permaneceu, num terreno e clima que lhe eram pouco favoráveis. Mas ela ali estava. Desde sempre e para sempre parecia ficar. Era daquelas árvores sem tempo. Se por um lado parecia seca, sem vida, queimada pelos dias, pelas brincadeiras mais agrestes da pequenada, que ora saltava de ramo em ramo, ora se agarra a todo e qualquer galho mais saliente e imitava os jogos da sua selva imaginária; mas, por outro, aquela árvore tinha força, tinha vida, era rija nas entranhas, tinha raízes profundas tão profundas quanto desconhecidas e sabia acima de tudo porque ali estava, porque ali tinha sempre que estar. Sabia muito bem que de outra forma não podia ser, que inha que sobreviver aos invernos mais rigorosos, à neve que durava sempre mais dias do que tinha sido previsto e que esses dias eram sempre demais para ela.
Na minha opinião aquela alfarrobeira conseguia sobreviver num clima e em condições adversas, porque devia ter aprendido muito bem a lição com todos os pássaros que por ali se passeavam e também ela, assim como eles, sabia voar tão mas tão bem, mesmo sem sair nunca do seu lugar. Ela tinha aprendido que muitas das vezes, para voar bem, para voar melhor, precisamos aprender a voar em V, como os pássaros fazem e assim conseguem chegar ao seu destino, umas vezes a comandar outras a deixar-se comandar, mas nunca isso nunca, pensar em desistir. Eu acho que esta alfarrobeira de raízes grossas, retorcidas e profundas, dava as suas mãos às outras árvores das redondezas e desta forma conseguiam fazer face às adversidades e ajudar-se mutuamente; a alfarrobeira partilhava a sua força, a sua vontade quando necessário e nas alturas em que fraquejava e desanimava eram as outras árvores que lhe estendiam a mão, partilhavam a sua serenidade, a sua fé, mostrando a sua disponibilidade e entrega. E os dias preenchiam-se de sentido, de força e por fim, de Vida. Assim, quando muitas das outras espécies, que até pertenciam ali, áquele solo, áquele clima, já há muito tinham desistido de ali permanecer, a alfarrobeira ficava, ficava sempre mais e mais e mais ainda. E ali estava ela. Ali continuava a testemunhar e a partilhar histórias de outras gerações, de outros momentos, de outras cores, de outros sentires. Ela gostava disso, aliás, ela vivia disso, da entrega, da comunhão com todos os outros seres vivos, com toda a natureza, apesar de muitos dos seus ramos já estarem partidos, sem possibilidade de renovação, outros ressequidos, outros quase quase a reduzir-se a nada.
Beeeaa...ouviu-se de rompante.
Olá John! Que fazes aqui? Perguntou a princesa.
Venho saber de ti. foi a resposta. Aliás, vim saber como estás, como te sentes, porque o sítio, esse eu já sabia qual era mesmo...onde estavas, claro.
Pois é, rsepondeu a princesa. tu sabes sempre, não é?
John sorriu, com aquela paz só dele. Sei sim, continuou ele.
E lá foram eles, com os dedos ligeiramente entrelaçados: o mindinho, o dele, o indicador esquerdo, o dela. Era sempre assim que caminhavam. E costumavam sorrir,
Os miúdos perguntaram por ti! Confessou John. Querem fazer bolo de canela com maçã. E a gata turquesa também perguntou por ti e querer nem se duvida que ela também queira.
A princesa soltou uma gargalhada anafada. Só tu john, dizes essas coisas.
inda fico com ciúmes desse teu príncipe um dia destes, ai fico fico. Não fiques, retorquiu a princesa. Olha John, qual é o nome do meu príncipe, sabes dizer-me?
Ele olhou para dentro da princesa e respondeu: Não, não sei.
Pois não, dise a princesa .E já pensaste porquê?
Já, respondeu John. Mas não te vou dizer porquê.
Tens cá um mau feitio tu! Às vezes! Valha-me deus, barafustou a princesa, já a levantar a sobrancelha esquerda em forma de v maiúsculo e quase quase a passar rapidamente para o seu já conhecido estado de amuo.
Pronto, está bem, vamos lá ver se confere então, condescendeu ela. 
O meu príncipe não tem nome, assim como os palácios não eram "palácios enormes", nem tão "ricos" assim, pelo menos desses ricos, nem o meu príncipe vivia logo ali ao lado, porque logo ali ao lado só existia a floresta enorme, densa, em infinitos tons de verde e casas nem vê-las. O meu príncipe são todos os príncipes e todas as princesas que vivem e nos fazem sonhar e como tal viver. O meu príncipe é o olhar cheio de esperança de todas as crianças, as felizes e das outras também. Mas, o meu príncipe também sou eu.
Ai sim? Atreveu-se o príncipe a interromper o discurso.
Sim, respondeu a princesa. Eu sei que tu já sabias de tudo isto. Tu sabes tanta coisa. Foi neste momento, que nas costas da princesa, a alfarrobeira piscou o olho direito a John, ao que ele retorquiu com um sorriso franco e satisfeito, também sem a princesa se aperceber.
E lá continuaram o seu caminho, foram saber da criançada, da turquesa e dos outros também.
Era uma vez, um príncipe e uma princesa e sim, foram felizes para sempre. Aliás, eles eram felizes desde sempre.
Anabelarmina

31 janeiro 2015

Mudanças de hora


Eu fui tendo ao longo do tempo, a noção que não sou uma pessoa “fácil” e percebi que também não pretendo ser, apesar de continuar a ter o objetivo de melhorar sempre enquanto Ser Humano. Tenho por vezes, talvez vezes demais, uma atitude algo “rude” e tempestuosa, mas também sei que tenho o outro lado – Deus não se esqueceu de me compensar, nunca esquece, aliás, e ainda bem que assim é.
Para mim a Vida, apesar de todas as dificuldades é muito simples na sua essência: Todos procuramos a Felicidade, o que quer que isso signifique.
Para mim, talvez até por egoísmo também, sempre que um Ser Humano voa, eu voo com Ele. Fico honestamente Feliz com a Felicidade dos outros, essa também é uma Felicidade minha. E não quero nunca deixar de ser assim. O resto pouco me interessa, mesmo. Se tiverem que ser felizes longe de mim, vão sê-lo. Se simpatizam mais ou menos comigo ou me detestam é assunto que já me preocupou mais. Eu tenho a minha Vida para me entreter e acreditem, já me dá muito o que fazer e é o que me basta. Não querendo com isso dizer que vivo isolada do Mundo! Preciso sim de estar tranquila, de ter os meus tempos, os meus espaços.
Para mim o Mundo somos todos Nós e cada um contribui como pode e é capaz, isto tenho aprendido mais recentemente.Quando nos cruzamos isso é Viver e é Maravilhoso.
Aqui deixo um texto que está no meu caderninho de apontamentos, há um ano ou dois, já não tenho muito a noção e que me auxilia nos dias, mais ou menos brilhantes.
Este texto é para todos os que assim o quiserem partilhar, em especial para ti querida amiga Carol Adegas, que descobriste recentemente o conceito de como é “andar às marradas” comigo; podes ficar feliz portanto, quer dizer que és amiga do peito miúda, não é para todos, vá lá e agradeço-te todos os momentos partilhados os bons e os outros também.
ESTÁ TUDO BEM
Podemos dizer que o único mal é a falta de Amor…mas não há qualquer falta dele…tudo é Amor…então será que amamos as coisas erradas? Nem isso…tudo precisa ser amado…até o mau e o errado…Então qual é o problema? Se calhar não existe problema algum…está tudo certo, mais que certo…
Talvez faça parte primeiro amar o sofrimento, a dor, a ilusão, a raiva, a confusão, etc, para que isso depois se torne no impulso e sabedoria que revela a Paz, a Felicidade, a Alegria, o Estado de Graça, etc.
Se não estamos plenos:
- É porque achamos que ainda não sofremos o suficiente, é porque estamos apegados à dor e ela é a nossa zona de conforto!
-É porque recusamos compreender a Vida, recusamos a Crescer por Dentro, recusamos mergulhar no Amor que já somos e entregamos a nossa vida ao Medo!
A Vida a cada acontecimento procura como uma mãe proteger-nos do Medo e de Todas as Ilusões, assim como, educar-nos para a Verdade e o Amor!
Jorge Maia
(Yoga com a Natureza)
Alterei umas maiúsculas espero que o autor não leve a mal.
Aprendi que afinal sei e sou capaz de Amar. Agradeço a todos Vós.
Claro, tu.
Eu

Anabelarmina
25 Outubro 2015

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Todos os dias, bom dia!


Descobri que por trás dos livros, dos textos, das palavras, vive uma vida com outro colorido.
Uma vida em que dar a mão tem outro tipo de calor, onde um gesto do olhar, uma expressão mais triste ou mais alegre, um olhar mais gelado e magoado que brota das profundezas do ser, os braços ao abandono, contém num segundo a força e a ternura de milhares de palavras.
Descobrir que a alegria de uma discussão, de uma zanga sincera, de um confronto, de uma revolta com a vida, que nos rasga, endurece, também nos dá o bilhete de acesso directo à ternura, aos sorrisos, à felicidade, à vida.
Descubro a cada dia que a vida real e não só a dos livros, tem outros brilhos, outros cheiros, outras melodias.
É a vida real que nos faz gelar com os pingos da chuva de inverno, a mesma que nos aquece por dentro quando o sol está radioso, dentro de nós.
Eu já te disse bom dia?

Anabelarmina

Junho 2013

sábado, 13 de abril de 2013

Platonices


Eu não quero um amor platónico. Ponto.
Eu quero um amor real. Daqueles em que os pontos negros da face são pontos negros apenas (mesmo que andem sempre de mãos dadas, à meia dúzia ou mais).
Quero um amor que não se importa se tenho aquela borbulha amarelada, feia, quase a rebentar de anafada que está, na ponta do nariz, cabelo oleoso (que com jeitinho tinha óleo para bem fritar pelo menos meia dúzia de palitos de batata), as unhas roídas quase até ao osso, o cabelo bem despenteado, como se tivesse ocorrido toda a batalha Francesa só no meu coro cabeludo.
Quero um amor onde as iscas são simplesmente iscas e não passam a foie grás, compreendem?
Não, eu não quero um amor platónico.
Bem, eu não estou a dizer que não quero saber de cavalos brancos, de príncipes e de princesas, de bichos de conta bailarinos, do luar, de estrelas cadentes, de serenatas ou outras que tais. Eu estou a dizer que eu não quero um amor platónico. Ponto.
Quero um amor à prova de bala sim, mas um amor onde ter as unhas dos pés enormes e encarquilhadas (do género águia) se chama ter unhas de águia. Só.
 Um amor onde por vezes, só por vezes, (não convém exagerar) se pode cheirar menos bem do pé esquerdo ou ter umas gramitas a mais sem que tal seja necessariamente sinónimo de uma catástrofe mundial que motiva a intervenção de todas as equipas de defesa dos direitos humanos a nível mundial e da defesa dos animais em vias de extinção também.
Eu estou a dizer que quero um amor que me dê a mão para não me deixar cair, ou quando estou com medo, que me ajude a levantar se tropecei num qualquer grão de areia mais provocador. Quero um amor que me ajeite o cobertor quando me armo em valente e acho que está muito calor, quando na verdade está temperatura nula, que ouça o meu silêncio e o partilhe sem ficar melindrado, que descubra coisas sobre mim que eu desconhecia ou das quais já me tinha esquecido.
Não, eu não quero um amor platónico.
É assim…se existir aquela coincidência de ambos acertarmos no mesmo fio de esparguete por obra do acaso, quando dividimos um prato de esparguete à bolonhesa também não é preciso andar de joelhos sobre meia dúzia de grãos, pelo menos meia hora, certo?
É um amor assim que eu quero.
Um amor doce mas real.
Um amor que partilhe as alegrias e as tristezas e que quando está um dia negro de trovoada não me tente convencer que o sol brilha nos antípodas… principalmente se estou furiosa, ensopada até à alma e com frio.
Não, eu não quero um amor platónico.
Ora bolas, agora tenho que ir ali abaixo…abrir a porta à fadinha dos dentes.
Anabelarmina
Abril 2013, dia do beijo

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Outra Escola


A outra escola tinha árvores, tinha salas maiores, tinha janelas que abrem, muitos animais por
perto, tinha magia, acho que era isso.
Foram muitos anos, muitos momentos, muitas pessoas que já não estão lá, nem cá, muitas
partilhas, muita entrega. Mas a outra escola… é esta ou a primeira? Mas…afinal…a outra não é
aquela que vem depois?! A segunda?!? A menos importante?!! Pois não sei, sei isso sim, que a
outra passou a ser a primeira, aquela que deixou saudade, apesar de ser tudo menos perfeita,
a que nos faz parar e querer que o tempo volte a trás. A outra também pode ser esta…mas isso
também não interessa nada. Uma delas é a outra.
A outra pode continuar a ter petiscos a qualquer hora, sobretudo no intervalo maior, bolos
de todas as cores e feitios, doces, salgados, pastéis de nata ou outros, de beringela, tofu
e soja, mortadela dentro de tupperwars ou não, restos de bolos do jantar do dia anterior,
ovos - moles, bolachinhas integrais, bombons de chocolate branco ou mesmo aquelas coisas
enroladas em bacon estaladiço, que cheiram tão bem quando estão a fritar! Tenho de as
provar um destes dias!
Tenho saudades, muitas saudades, da escola, da outra e da outra que esta ainda não é, mas
que vai no bom caminho para vir a ser!
Nesta escola não corro o risco de cair do primeiro andar, pelo menos, não pela janela e se
quiser ver o pardalito anafado, que em breve vai ter a companhia dos seus primos que vêm
do Cacém, tenho que descer calmamente pelas escadas, o que até me ajuda a manter a
boa forma física dizem os especialistas; sim, esta escola não é perfeita, mas a outra que é a
primeira, também o não era.
Sim, tenho saudades e muitas, mas vou à outra escola de vez em quando, sento-me no degrau
da entrada, sinto a brisa que corre apressada, tiro umas fotografias que partilho depois no
facebook e regresso mais feliz; as saudades ficam adormecidas durante algum tempo.
O importante é que a escola, a outra, vai crescendo, amadurecendo e com o passar do tempo,
vai ser aquela ou a outra e novamente isso não interessa nada, pois juntas faz com que seja
a escola, a nossa, aquela onde nos olham nos olhos e nos vêem, nos dizem que pintámos o
cabelo de um tom de castanho avelã, ligeiramente mais claro hoje ou que pintámos de um
fúscsia mais leve, as unhas dos pés ou a que a sandália de tiras castanhas e salto de madeira é
linda linda!... para já não falar na manga de balão e laçarote na gola que são o máximo! ou nos
perguntam “Como se sente hoje?” ou “Está tudo bem?” ou “Posso tirar uma dúvida? Está mais
calma hoje?”. Esta é a outra escola, a escola que deve ser sempre.
Tenho de ter mais feriados, está a dar-me para a reflexão.
Ah já agora...não se esqueçam, vou enrolar-me sobre a cadeira de rodinhas, debaixo da
secretária da sala 24 e aguardo ansiosamente pela tal latinha…sim…a do patê!!! Pode ser?
Texto elaborado para o jornal da Escola EB2.3 Isabel de Portugal
Anabelarmina
Junho 2011

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dias de Chegar


                                                                                                                                           Julho 2012
Chegar…depois de partir, tantas e tantas horas antes.

Chegar levando a euforia pelo desconhecido, com o desejo de aventura, de conhecer e de descobrir olhares, vidas, mares já antes navegados, mas ainda com muito por navegar.

Cada viagem é uma entrega, mas é muito mais: é também a humildade da partilha, da entreajuda, a descoberta de novos sabores, novas realidades, novas cores, novas melodias e emoções; viajar é receber aquilo que o outro tem para nos oferecer – aquela torta de chocolate tão especial, os bombons com o laçarote cor de laranja, a música tradicional, aquela pizza inundada por uma avalanche de queijo macio e delicioso, aquela salada de frutas da época, servida na taça de plástico no mercado de rua, aquela carne picante com molho escuro e perfumado, a sandes de espetada, a salada de batata com queijo e especiarias, o cozido de caril, o chá de menta e muito mais.

Viajar é sabermos valorizar aquilo que temos e do qual tantas vezes nem nos damos conta, quando se corre apressado para mais um dia de trabalho e depois, de regresso a casa, a pressa continua, porque no dia seguinte recomeça tudo de novo. É preciso trabalhar, é claro!

Quando se viaja o tempo corre mais devagar, porque sabemos aproveitar melhor as horas, os minutos e os segundos, pois sabemos que não temos todo o tempo do mundo e há que regressar a casa dentro em breve.

Viajar é saber relativizar os nossos problemas, é fazer de nós um Ser Humano melhor, quer seja quando nos entregamos à macacada, que espera ansiosa e ruidosamente por mais um amendoim descascado (e já agora, se não for pedir demais, um abracinho apertado); ou quando nos deparamos com outras gentes, com outras vidas, mas com muitos dos mesmos medos e angústias e muitas das mesmas paixões.

Espera, espera! Há que tirar mais uma foto! E outra! Só mais uma…vá lá! Também, a máquina é digital e podemos tirar quinhentas fotografias e apagar 499, não é fantástico? Só mais uma e páro! Está combinado! Pelo menos por agora. Sim…Temos de nos precaver…não vá a máquina falhar e ficar desfocada aquela foto, logo aquela!!! A que eu mais queria, para fazer aquele poster que vi na loja da esquina. Aquela foto marcava aquele dia…aquele instante…e a outra marcava o outro…e o outro também… com aquela fotografia eu queria reter aquilo que não é possível reter…a magia do momento, aquele olhar doce, o outro olhar sofrido mas onde se avista a esperança, como se fosse uma luz ao fundo de um imenso túnel; aquele olhar que não coincide com o respectivo sorriso e vice-versa; aquele brilho, aquela cor, aquela imensidão de mares, de olhares, de sorrisos, de abraços, de apertos de mão ou reter simplesmente aquela energia que nos envolve, une e nos torna Gente.

Há dias especiais, ternos, mágicos, esses são alguns dos dias em que eu gostaria de parar o tempo, durante largos instantes, como aqueles instantes que demoram para a maré baixar ou subir novamente e desfrutar bem devagarinho – são estes os dias em que tudo parece estar no lugar certo, em que tudo faz sentido; são aqueles dias em que se ouve a cigarra no lado de fora da janela da sala de estar, ou se ouve um passarito mais atrevido, a fazer um solo, convencido de que é o melhor dos tenores, na presença de toda uma imensa orquestra sinfónica.

Há dias, que são mais dias de chegar…não de partir.

Anabelarmina
http://www.youtube.com/watch?v=OOFe4Krv048

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Era uma vez...

Era uma vez estrelas de mil cores, planetas às listas ou aos quadrados, plantados nas órbitas da imaginação e crianças...muitas crianças... de todas as cores, de todos os feitios, crenças, olhares e histórias...tantas histórias...umas são de encantar outras com o feitiço quebrado, de desalento.
Há histórias de magia, outras são tão más, duras e reais que nos arrancam lágrimas, tristezas, apertam o coração ou dão um nó na garganta e nos fazem ter vontade de desistir, de pintar tudo com cores de muito preto e pouco branco, na tentativa de as esquecer e apagar.
Os dias correm velozes, o ritmo tão alucinante, por vezes deixa-nos incapazes de pensar com clareza, de sentir com tempo; porém, surgem depois, os dias de ternura, de acalmia, de fantasia, dias em que uma melodia suave nos transporta e em que tudo passa a fazer mais sentido; surgem dias de sorrisos, dias que nos fazem continuar, quando do nada, surge aquele olhar que nos implora para não desistir, aquele olhar que nos toca fundo e nos faz acreditar. Então a magia acontece, do cansaço nasce a força e com ela a vontade de mudar tudo, para melhor!
Na escola os meninos jogam à bola e as meninas fazem tranças, ou saltam à corda (aquela corda de cor verde fluorescente, como a da luz da discoteca) ou costuram bonecas de trapo, com olhos de botão, boca bordada da cor da rosa que está no jardim e nariz de ervilha, a fingir que é real.
A gata lambe uma vez mais e repetidamente os seus longos bigodes e depois esconde-se atrás do banco do jardim a observar aquele pardal anafado, que está tão próximo e quase a escorregar do galho , daquele limoeiro pequeno que está no fundo do pátio.
Todos os dias acontecem, parecem tão iguais, porém, todos sabemos que tal não é possível; quem sabe essa não seja a magia principal. Quase nada se pode prever, ou corre-se o risco de errar, nem mesmo que alguém nos diga: "Obrigado por tudo!" ou "Peço desculpa, se nem sempre me portei como devia ser..." ou " Ficámos muito gratos por tudo!" sim, também nós ficámos gratos por todos os bons momentos (e alguns maus também!): pelos textos, pela música, pelas cantigas, pela coragem, pelo empenho e dedicação, pela ternura.
É tempo de dizer: "Até qualquer hora!"- a esperança é que essa hora possa mesmo chegar e se voltem a partilhar emoções, gostos, gargalhadas, sorrisos, momentos e se possa acreditar que vale a pena lutar para ser Feliz.
Outro dia começa...a gata espreguiça-se calmamente ao som de uns acordes da viola que se ouve ao fundo,, primeiro para trás, depois para a frente, estica as patas traseiras até ficar nas pontas dos dedos e depois, devagar, muito devagar, lança-se suavemente, em busca de um abraço qualquer, que a queira apertar forte e já agora, se não for pedir muito, se lembre de trazer uma latinha do seu patê preferido.

Texto dedicado aos alunos do 9º ano da escola EB2,3 Moinhos da Arroja ano 2010/2011

A. Silva