Ele tinha caracóis cor
de azeitona e ela tranças louras. Tinham mais ou menos a mesma estatura, ele mais 3 anos do que
ela. Em comum tinham entre muitas coisas mais, o gosto de sonhar, acordado.
E passavam os dias a olhar o céu, a tentar adivinhar as
formas sugeridas pelas nuvens muito brancas, no céu azul muito claro. Os dias
corriam a tentar adivinhar a melodia dos rios, dos ventos, das marés, das gotas
da chuva, do luar ou a da dança das estrelas.
Como todos os
príncipes, também estes viviam em castelos soalheiros, rodeados de uma natureza
imensa e tão verde que deixava qualquer um cheio de vontade de ali habitar.
Pela manhã costumavam encontrar-se às escondidas debaixo de uma alfarrobeira
enorme, centenária e cujos ramos tinham sempre empoleirados meia
dúzia de passaritos saltitantes e ruidosamente felizes. A alfarrobeira ficava
na margem direita de um pequeno riacho cujas pedras eram forradas a musgo
fluorescente, com rebordo alaranjado, que lhe dava diversas formas, às quais
era impossível ficar indiferente.
A alfarrobeira desta
história, foi testemunha de muitas histórias de encantar, partilhadas há cerca
de duas décadas atrás, quando Bea, a princesa, era criança e o príncipe ainda
ali não vivia. Eram histórias mágicas, como são todas as histórias contadas pelos avós, debaixo de qualquer árvore, por mais pequena
e desengonçada que seja. As histórias eram cheias de cor, com heróis, bandidos,
fadas, sapos, dragões, joaninhas, flores, cozinheiras rechonchudas e rosadas
que corriam atrás dos gatos mais atrevidos e que ao mais pequeno deslize, lá
surripiavam mais uma sardinha, de cima da bancada de madeira escura da cozinha
do castelo.
Esta alfarrobeira
enorme, descia até ao solo, inclinando-se suavemente e formando um longo banco,
rasteiro, onde avós, netos, pais, tios, primos, amigos, ...se sentavam e
tagarelavam alegremente falando de tudo. Eram dias felizes, cheios de melodia,
cheio de cor. Dias em que as crianças se sujavam de terra da
ponta dos cabelos à ponta dos pés, em que se engoliam gemadas para dar mais
energia, mais umas colheradas de óleo de fígado de bacalhau que fazia bem e se
descascavam amêndoas, ainda verdes só para ver como eram por dentro...e por
dentro eram gelatinosas e transparentes ...imaginem só. O tempo nesses dias
sabia a mais tempo, a tempo melhor.
O dia tinha amanhecido cinzento, muito cinzento. as nuvens
espessas e escuras, ameaçavam o óbvio. Vem aí uma tempestade. E veio.
Foram três dias sem parar de chover, de fazer vento, de estar cinzento. Em casa, as brasas da lareira crepitavam, cheirava a sopa de grão com hortelã, ou a canja de galinha do campo, ou a açorda de peixe com coentros, sempre cheirava a sopa
nestes dias frios, pelo menos a sopa. Os dias corriam lentamente, tranquilamente doces. Estes dias sabem a canela. Sabem tão bem, algumas vezes, estes dias.
a princesa não estava com o seu príncipe havia muitos dias, o que não era de todo uma situação normal. Começava a ficar impaciente, mas não havia forma de se comunicarem. Naquele tempo, no tempo destes príncipes, ainda não existiam telemóveis e o telefone mais próximo ficava longe, na mercearia da aldeia, como tal apenas lhe restava esperar, aguardar pacientemente por esse tempo que viria, mais cedo ou mais tarde. E esse tempo melhor veio, chegou finalmente, trouxe consigo um sol radioso,
aquele sol que nos aconchega a alma mas que por vezes também nos faz cócegas no estômago e nos chuta pata a vida. Esse sol que nos dá uma piscadela de olho e que nos desafia a quase tudo, que nos desafia a ser mais feliz.
Toc, toc ouviu-se na porta do palácio. Finalmente o príncipe chegara! e com ele regressaram as aventuras a grande velocidade.
A princesa adora todo o tipo de aventuras, de brincadeiras ao ar livre, principalmente as mais radicais; mas, no meio de todas essas aventuras as suas atividades prediletas continuam a ser caminhar e andar de bicicleta.
E assim foi...durante horas foram os mais felizes, os mais sorridentes, os mais brilhantes. O tempo parava sempre naquelas alturas, era como se não existisse mais nada, nem mais ninguém, pois ali estava tudo o que era necessário. Este era sempre um
tempo intemporal. Era um tempo eterno.
Viajar, sim viajar era outra das grandes paixões desta princesa. E de outras princesas claro está. Aliás viajar pertence ao mundo dos sonhos e como tal só podia mesmo ser uma coisa de princesas.
O seu príncipe acompanhava-a sempre, em todas as aventuras, em todas as viagens. Estes príncipes eram como peças de um puzzle, tudo fazia sentido, tudo estava no sítio certo à hora certa.
Claro está que a perfeição não existe todos os dias, mas por ali reinava muito do tempo que é tempo. No outro tempo, era quando a princesa ficava de mau feitio, só um bocadinho por vezes, mas outras vezes não era tão pouco assim. Nestes outros dias, era como se os seus neurónios resolvessem travar uma batalha campal com o mundo inteiro e ainda os arredores se tal ainda fosse possível, percebem? Era uma espécie de vendaval que vem sem pré-aviso, e então é uma enorme tempestade interna, que surge de um momento para o outro, capaz de baralhar as sardas de uma face
inteira em segundos, breves. Ficava azeda, mal disposta, ficava tão cinzenta e ao mesmo tempo incolor. Depois passava. E o sol voltava a brilhar uma vez mais e cada vez que surgia brilhava mais e mais forte do que na vez anterior. O príncipe já sabia com o que contar, fingia não perceber ou dizia simplesmente
...está bem, o mundo está todo contra ti hoje princesa, mas não faz mal, daqui a nada nada tudo passou, não há como lhe escapar, está tranquila. E ela ficava tranquila e ele tinha razão, sempre tinha, mas a princesa não gostava nada de lhe dizer isso, e amuava mais um bocado, só para prevenir e depois piscava-lhe
o olho. Ele gostava disso. Ela sabia que ele gostava.
E as aventuras continuavam, tempo após tempo, com uma zanga aqui outra acolá mas acima de tudo os príncipes eram felizes assim, nas subidas, nas descidas e no caminho mais reto.
Toda a gente no palácio e não só, achava que os príncipes eram namorados, mas eles não gostavam nada disso, ofendiam-se. Ofendiam-se porque não eram, quer dizer apesar de não serem, houve um dia em que o príncipe ficou algo baralhado e acho que sim, que eram e roubou um beijo
à princesa, que ficou furiosa e logo lhe perguntou: "Estás bem? O que foi isto? Porque fizeste isto?" o príncipe algo atrapalhado, com as suas enormes bochechas pintadas de grená retorquiu: "Porque me apeteceu". Poucas coisas há que me melhor e mais genuinamente descrevam "o apeteceu". É o não ter justificação, encerrando nisso todas as possíveis e desnecessárias justificações. Poucos instantes passaram e já nenhum dos dois disso se lembrara, apesar das pernas bambas, do coração a mil, das borboletas no estômago ou do frio enfiado nos ossos e que depois se transformava em calor. tudo voltou a ser como era antes, como sempre assim fora: a aventura de uma vida feliz.
Houve alturas em que os príncipes se viam mais amiudadamente, outras nem tanto, novos amigos foram surgindo na vida de ambos, amores também e um certo dia de primavera, daqueles dias em que as flores mais sorridentes estão, os príncipes voltaram a reencontrar-se a sentar-se como sempre, à sombra daquela alfarrobeira, já sem idade, e nome também já não tinha, o tempo tinha ído apagando e conversaram sem se lembrarem do tempo. Quando deram por isso, era lusco fusco e foi então que avistaram aquilo que apenas eles conseguiam visualizar, apesar de na altura estar um grupo grande de caminhantes por perto, que tinham ido explorar aquela zona mais montanhosa: viram vários pontos luminosos no céu, que, entretanto, tinha escurecido mais um pouco. Esses seis pontos, deslocavam-se em simultâneo, lentamente, e formavam um triângulo que parecia equilátero. não era um avião, disso não restava qualquer dúvida. Estranho foi que mais ninguém se tivesse apercebido, porque o que viam estava relativamente perto, e a bom ver. A mais ninguém parecia perturbar, nem pelo menos atrair a atenção, apenas aos dois príncipes; era como se só eles o conseguissem ver. Porque esse era o objetivo. Sem mais palavras, os dois entreolharam-se e murmuraram baixinho ao ouvido um do outro: Estás a ver aquilo? Que será? quase em uníssono.
Está tudo bem, concluiu o príncipe, já tenho visto outros semelhantes. Está tudo bem. E a princesa não sabia porquê, mas sem mais questionar sossegou. Os dois príncipes permaneceram mais alguns instantes debaixo da alfarrobeira, aquela árvore imponente, que ninguém sabia explicar como se desenvolveu e ali permaneceu, num terreno e clima que lhe eram pouco favoráveis. Mas ela ali estava. Desde sempre e para sempre parecia ficar. Era daquelas árvores sem tempo. Se por um lado parecia seca, sem vida, queimada pelos dias, pelas brincadeiras mais agrestes da pequenada, que ora saltava de ramo em ramo, ora se agarra a todo e qualquer galho mais saliente e imitava os jogos da sua selva imaginária; mas, por outro, aquela árvore tinha força, tinha vida, era rija nas entranhas, tinha raízes profundas tão profundas quanto desconhecidas e sabia acima de tudo porque ali estava, porque ali tinha sempre que estar. Sabia muito bem que de outra forma não podia ser, que inha que sobreviver aos invernos mais rigorosos, à neve que durava sempre mais dias do que tinha sido previsto e que esses dias eram sempre demais para ela.
Na minha opinião aquela alfarrobeira conseguia sobreviver num clima e em condições adversas, porque devia ter aprendido muito bem a lição com todos os pássaros que por ali se passeavam e também ela, assim como eles, sabia voar tão mas tão bem, mesmo sem sair nunca do seu lugar. Ela tinha aprendido que muitas das vezes, para voar bem, para voar melhor, precisamos aprender a voar em V, como os pássaros fazem e assim conseguem chegar ao seu destino, umas vezes a comandar outras a deixar-se comandar, mas nunca isso nunca, pensar em desistir. Eu acho que esta alfarrobeira de raízes grossas, retorcidas e profundas, dava as suas mãos às outras árvores das redondezas e desta forma conseguiam fazer face às adversidades e ajudar-se mutuamente; a alfarrobeira partilhava a sua força, a sua vontade quando necessário e nas alturas em que fraquejava e desanimava eram as outras árvores que lhe estendiam a mão, partilhavam a sua serenidade, a sua fé, mostrando a sua disponibilidade e entrega. E os dias preenchiam-se de sentido, de força e por fim, de Vida. Assim, quando muitas das outras espécies, que até pertenciam ali, áquele solo, áquele clima, já há muito tinham desistido de ali permanecer, a alfarrobeira ficava, ficava sempre mais e mais e mais ainda. E ali estava ela. Ali continuava a testemunhar e a partilhar histórias de outras gerações, de outros momentos, de outras cores, de outros sentires. Ela gostava disso, aliás, ela vivia disso, da entrega, da comunhão com todos os outros seres vivos, com toda a natureza, apesar de muitos dos seus ramos já estarem partidos, sem possibilidade de renovação, outros ressequidos, outros quase quase a reduzir-se a nada.
Beeeaa...ouviu-se de rompante.
Olá John! Que fazes aqui? Perguntou a princesa.
Venho saber de ti. foi a resposta. Aliás, vim saber como estás, como te sentes, porque o sítio, esse eu já sabia qual era mesmo...onde estavas, claro.
Pois é, rsepondeu a princesa. tu sabes sempre, não é?
John sorriu, com aquela paz só dele. Sei sim, continuou ele.
E lá foram eles, com os dedos ligeiramente entrelaçados: o mindinho, o dele, o indicador esquerdo, o dela. Era sempre assim que caminhavam. E costumavam sorrir,
Os miúdos perguntaram por ti! Confessou John. Querem fazer bolo de canela com maçã. E a gata turquesa também perguntou por ti e querer nem se duvida que ela também queira.
A princesa soltou uma gargalhada anafada. Só tu john, dizes essas coisas. inda fico com ciúmes desse teu príncipe um dia destes, ai fico fico. Não fiques, retorquiu a princesa. Olha John, qual é o nome do meu príncipe, sabes dizer-me?
Ele olhou para dentro da princesa e respondeu: Não, não sei.
Pois não, dise a princesa .E já pensaste porquê?
Já, respondeu John. Mas não te vou dizer porquê.
Tens cá um mau feitio tu! Às vezes! Valha-me deus, barafustou a princesa, já a levantar a sobrancelha esquerda em forma de v maiúsculo e quase quase a passar rapidamente para o seu já conhecido estado de amuo.
Pronto, está bem, vamos lá ver se confere então, condescendeu ela.
O meu príncipe não tem nome, assim como os palácios não eram "palácios enormes", nem tão "ricos" assim, pelo menos desses ricos, nem o meu príncipe vivia logo ali ao lado, porque logo ali ao lado só existia a floresta enorme, densa, em infinitos tons de verde e casas nem vê-las. O meu príncipe são todos os príncipes e todas as princesas que vivem e nos fazem sonhar e como tal viver. O meu príncipe é o olhar cheio de esperança de todas as crianças, as felizes e das outras também. Mas, o meu príncipe também sou eu.
Ai sim? Atreveu-se o príncipe a interromper o discurso.
Sim, respondeu a princesa. Eu sei que tu já sabias de tudo isto. Tu sabes tanta coisa. Foi neste momento, que nas costas da princesa, a alfarrobeira piscou o olho direito a John, ao que ele retorquiu com um sorriso franco e satisfeito, também sem a princesa se aperceber.
E lá continuaram o seu caminho, foram saber da criançada, da turquesa e dos outros também.
Era uma vez, um príncipe e uma princesa e sim, foram felizes para sempre. Aliás, eles eram felizes desde sempre.
Foram três dias sem parar de chover, de fazer vento, de estar cinzento. Em casa, as brasas da lareira crepitavam, cheirava a sopa de grão com hortelã, ou a canja de galinha do campo, ou a açorda de peixe com coentros, sempre cheirava a sopa
nestes dias frios, pelo menos a sopa. Os dias corriam lentamente, tranquilamente doces. Estes dias sabem a canela. Sabem tão bem, algumas vezes, estes dias.
a princesa não estava com o seu príncipe havia muitos dias, o que não era de todo uma situação normal. Começava a ficar impaciente, mas não havia forma de se comunicarem. Naquele tempo, no tempo destes príncipes, ainda não existiam telemóveis e o telefone mais próximo ficava longe, na mercearia da aldeia, como tal apenas lhe restava esperar, aguardar pacientemente por esse tempo que viria, mais cedo ou mais tarde. E esse tempo melhor veio, chegou finalmente, trouxe consigo um sol radioso,
aquele sol que nos aconchega a alma mas que por vezes também nos faz cócegas no estômago e nos chuta pata a vida. Esse sol que nos dá uma piscadela de olho e que nos desafia a quase tudo, que nos desafia a ser mais feliz.
Toc, toc ouviu-se na porta do palácio. Finalmente o príncipe chegara! e com ele regressaram as aventuras a grande velocidade.
A princesa adora todo o tipo de aventuras, de brincadeiras ao ar livre, principalmente as mais radicais; mas, no meio de todas essas aventuras as suas atividades prediletas continuam a ser caminhar e andar de bicicleta.
E assim foi...durante horas foram os mais felizes, os mais sorridentes, os mais brilhantes. O tempo parava sempre naquelas alturas, era como se não existisse mais nada, nem mais ninguém, pois ali estava tudo o que era necessário. Este era sempre um
tempo intemporal. Era um tempo eterno.
Viajar, sim viajar era outra das grandes paixões desta princesa. E de outras princesas claro está. Aliás viajar pertence ao mundo dos sonhos e como tal só podia mesmo ser uma coisa de princesas.
O seu príncipe acompanhava-a sempre, em todas as aventuras, em todas as viagens. Estes príncipes eram como peças de um puzzle, tudo fazia sentido, tudo estava no sítio certo à hora certa.
Claro está que a perfeição não existe todos os dias, mas por ali reinava muito do tempo que é tempo. No outro tempo, era quando a princesa ficava de mau feitio, só um bocadinho por vezes, mas outras vezes não era tão pouco assim. Nestes outros dias, era como se os seus neurónios resolvessem travar uma batalha campal com o mundo inteiro e ainda os arredores se tal ainda fosse possível, percebem? Era uma espécie de vendaval que vem sem pré-aviso, e então é uma enorme tempestade interna, que surge de um momento para o outro, capaz de baralhar as sardas de uma face
inteira em segundos, breves. Ficava azeda, mal disposta, ficava tão cinzenta e ao mesmo tempo incolor. Depois passava. E o sol voltava a brilhar uma vez mais e cada vez que surgia brilhava mais e mais forte do que na vez anterior. O príncipe já sabia com o que contar, fingia não perceber ou dizia simplesmente
...está bem, o mundo está todo contra ti hoje princesa, mas não faz mal, daqui a nada nada tudo passou, não há como lhe escapar, está tranquila. E ela ficava tranquila e ele tinha razão, sempre tinha, mas a princesa não gostava nada de lhe dizer isso, e amuava mais um bocado, só para prevenir e depois piscava-lhe
o olho. Ele gostava disso. Ela sabia que ele gostava.
E as aventuras continuavam, tempo após tempo, com uma zanga aqui outra acolá mas acima de tudo os príncipes eram felizes assim, nas subidas, nas descidas e no caminho mais reto.
Toda a gente no palácio e não só, achava que os príncipes eram namorados, mas eles não gostavam nada disso, ofendiam-se. Ofendiam-se porque não eram, quer dizer apesar de não serem, houve um dia em que o príncipe ficou algo baralhado e acho que sim, que eram e roubou um beijo
à princesa, que ficou furiosa e logo lhe perguntou: "Estás bem? O que foi isto? Porque fizeste isto?" o príncipe algo atrapalhado, com as suas enormes bochechas pintadas de grená retorquiu: "Porque me apeteceu". Poucas coisas há que me melhor e mais genuinamente descrevam "o apeteceu". É o não ter justificação, encerrando nisso todas as possíveis e desnecessárias justificações. Poucos instantes passaram e já nenhum dos dois disso se lembrara, apesar das pernas bambas, do coração a mil, das borboletas no estômago ou do frio enfiado nos ossos e que depois se transformava em calor. tudo voltou a ser como era antes, como sempre assim fora: a aventura de uma vida feliz.
Houve alturas em que os príncipes se viam mais amiudadamente, outras nem tanto, novos amigos foram surgindo na vida de ambos, amores também e um certo dia de primavera, daqueles dias em que as flores mais sorridentes estão, os príncipes voltaram a reencontrar-se a sentar-se como sempre, à sombra daquela alfarrobeira, já sem idade, e nome também já não tinha, o tempo tinha ído apagando e conversaram sem se lembrarem do tempo. Quando deram por isso, era lusco fusco e foi então que avistaram aquilo que apenas eles conseguiam visualizar, apesar de na altura estar um grupo grande de caminhantes por perto, que tinham ido explorar aquela zona mais montanhosa: viram vários pontos luminosos no céu, que, entretanto, tinha escurecido mais um pouco. Esses seis pontos, deslocavam-se em simultâneo, lentamente, e formavam um triângulo que parecia equilátero. não era um avião, disso não restava qualquer dúvida. Estranho foi que mais ninguém se tivesse apercebido, porque o que viam estava relativamente perto, e a bom ver. A mais ninguém parecia perturbar, nem pelo menos atrair a atenção, apenas aos dois príncipes; era como se só eles o conseguissem ver. Porque esse era o objetivo. Sem mais palavras, os dois entreolharam-se e murmuraram baixinho ao ouvido um do outro: Estás a ver aquilo? Que será? quase em uníssono.
Está tudo bem, concluiu o príncipe, já tenho visto outros semelhantes. Está tudo bem. E a princesa não sabia porquê, mas sem mais questionar sossegou. Os dois príncipes permaneceram mais alguns instantes debaixo da alfarrobeira, aquela árvore imponente, que ninguém sabia explicar como se desenvolveu e ali permaneceu, num terreno e clima que lhe eram pouco favoráveis. Mas ela ali estava. Desde sempre e para sempre parecia ficar. Era daquelas árvores sem tempo. Se por um lado parecia seca, sem vida, queimada pelos dias, pelas brincadeiras mais agrestes da pequenada, que ora saltava de ramo em ramo, ora se agarra a todo e qualquer galho mais saliente e imitava os jogos da sua selva imaginária; mas, por outro, aquela árvore tinha força, tinha vida, era rija nas entranhas, tinha raízes profundas tão profundas quanto desconhecidas e sabia acima de tudo porque ali estava, porque ali tinha sempre que estar. Sabia muito bem que de outra forma não podia ser, que inha que sobreviver aos invernos mais rigorosos, à neve que durava sempre mais dias do que tinha sido previsto e que esses dias eram sempre demais para ela.
Na minha opinião aquela alfarrobeira conseguia sobreviver num clima e em condições adversas, porque devia ter aprendido muito bem a lição com todos os pássaros que por ali se passeavam e também ela, assim como eles, sabia voar tão mas tão bem, mesmo sem sair nunca do seu lugar. Ela tinha aprendido que muitas das vezes, para voar bem, para voar melhor, precisamos aprender a voar em V, como os pássaros fazem e assim conseguem chegar ao seu destino, umas vezes a comandar outras a deixar-se comandar, mas nunca isso nunca, pensar em desistir. Eu acho que esta alfarrobeira de raízes grossas, retorcidas e profundas, dava as suas mãos às outras árvores das redondezas e desta forma conseguiam fazer face às adversidades e ajudar-se mutuamente; a alfarrobeira partilhava a sua força, a sua vontade quando necessário e nas alturas em que fraquejava e desanimava eram as outras árvores que lhe estendiam a mão, partilhavam a sua serenidade, a sua fé, mostrando a sua disponibilidade e entrega. E os dias preenchiam-se de sentido, de força e por fim, de Vida. Assim, quando muitas das outras espécies, que até pertenciam ali, áquele solo, áquele clima, já há muito tinham desistido de ali permanecer, a alfarrobeira ficava, ficava sempre mais e mais e mais ainda. E ali estava ela. Ali continuava a testemunhar e a partilhar histórias de outras gerações, de outros momentos, de outras cores, de outros sentires. Ela gostava disso, aliás, ela vivia disso, da entrega, da comunhão com todos os outros seres vivos, com toda a natureza, apesar de muitos dos seus ramos já estarem partidos, sem possibilidade de renovação, outros ressequidos, outros quase quase a reduzir-se a nada.
Beeeaa...ouviu-se de rompante.
Olá John! Que fazes aqui? Perguntou a princesa.
Venho saber de ti. foi a resposta. Aliás, vim saber como estás, como te sentes, porque o sítio, esse eu já sabia qual era mesmo...onde estavas, claro.
Pois é, rsepondeu a princesa. tu sabes sempre, não é?
John sorriu, com aquela paz só dele. Sei sim, continuou ele.
E lá foram eles, com os dedos ligeiramente entrelaçados: o mindinho, o dele, o indicador esquerdo, o dela. Era sempre assim que caminhavam. E costumavam sorrir,
Os miúdos perguntaram por ti! Confessou John. Querem fazer bolo de canela com maçã. E a gata turquesa também perguntou por ti e querer nem se duvida que ela também queira.
A princesa soltou uma gargalhada anafada. Só tu john, dizes essas coisas. inda fico com ciúmes desse teu príncipe um dia destes, ai fico fico. Não fiques, retorquiu a princesa. Olha John, qual é o nome do meu príncipe, sabes dizer-me?
Ele olhou para dentro da princesa e respondeu: Não, não sei.
Pois não, dise a princesa .E já pensaste porquê?
Já, respondeu John. Mas não te vou dizer porquê.
Tens cá um mau feitio tu! Às vezes! Valha-me deus, barafustou a princesa, já a levantar a sobrancelha esquerda em forma de v maiúsculo e quase quase a passar rapidamente para o seu já conhecido estado de amuo.
Pronto, está bem, vamos lá ver se confere então, condescendeu ela.
O meu príncipe não tem nome, assim como os palácios não eram "palácios enormes", nem tão "ricos" assim, pelo menos desses ricos, nem o meu príncipe vivia logo ali ao lado, porque logo ali ao lado só existia a floresta enorme, densa, em infinitos tons de verde e casas nem vê-las. O meu príncipe são todos os príncipes e todas as princesas que vivem e nos fazem sonhar e como tal viver. O meu príncipe é o olhar cheio de esperança de todas as crianças, as felizes e das outras também. Mas, o meu príncipe também sou eu.
Ai sim? Atreveu-se o príncipe a interromper o discurso.
Sim, respondeu a princesa. Eu sei que tu já sabias de tudo isto. Tu sabes tanta coisa. Foi neste momento, que nas costas da princesa, a alfarrobeira piscou o olho direito a John, ao que ele retorquiu com um sorriso franco e satisfeito, também sem a princesa se aperceber.
E lá continuaram o seu caminho, foram saber da criançada, da turquesa e dos outros também.
Era uma vez, um príncipe e uma princesa e sim, foram felizes para sempre. Aliás, eles eram felizes desde sempre.
Anabelarmina
31 janeiro 2015